quinta-feira, 16 de junho de 2011

corpo que me recebe, corpo que me desnuda

sábado, 1 de novembro de 2008

Escrever, humildade, técnica

"Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não realmente do que apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assutei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri esse tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que o erro dá à vida, faz perder muito tempo."

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Clarice

sábado, 18 de outubro de 2008

danço eu, dança você, na dança da solidão

de quatro, no seu quadrado
cada um no seu quadrado

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A chuva cai, de pouco, entre trovões. Muitos esperam pelo fim da jornada de trabalho, querendo pisar a rua ruim de novo. Chove, e todos têm um risco escuro na cara, atravessado de orelha à orelha. Até as crianças.
Dum lado ela segura a criança, do outro, a sacola. O trajeto é longo. Uma senhora se aproxima, com os olhos pequenos imersos na face cheia, tentando estender alguma coisa. Os olhos parecem que vão se afogar.
Uma das mãos avança bamba pelo espaço enquanto a outra busca o corrimão em que se apoiar. No farol vermelho, ela entende: um relógio fosforecente, por cinco reais. À prova dágua, bom para quando chove.
O ônibus encosta. No ponto, um senhor de idade mede a distância entre as próprias orelhas, com uma fita métrica.
Aqui chove sempre, ela pensa, olhando o vidro marcado de pingo. As gotinhas brilham atravessadas pelas luzes em movimento. A vendedora do relógio insiste, sacudindo o ar. Ela tenta explicar que está sem dinheiro, mas a vendedora grita com força, o som da voz a alcança esganido. Já não é mais uma senhora, talvez uma mulher, cuja voz vem de baixo.
A mãe abaixa os olhos, e vira o rosto. As gotas na janela lhe provocam certa tontura, brilhando pequenas e despedaçadas. Alguém lhe segura o braço em que carrega a criança. É a mulher do relógio, que está passando. Vai tentar vender no segundo carro.
Se pudesse, ajudava. Já tinha ficado sem dinheiro pra pagar a saída do ônibus, lembrou, enquanto reparava um homem a sua frente. Ele media o pulso com uma fita métrica, repetidas vezes. Depois media o comprimento dos dedos, o comprimento da mão aberta. Mão de homem, ela lembrou: quando há homens no ônibus é mais fácil de conseguir dinheiro.
Ficou olhando as gotas e as luzes na janela: uma delas subia enquanto as outras desciam. A rua ruim trovejou, bem perto dessa vez. Pareceu que dizia alguma coisa, ela não entendia. Sentiu o corpo vacilar, os olhos caírem pra dentro enquanto os ouvidos se abriam para fora, num grito inaudível para quem só estava por perto.

sábado, 27 de setembro de 2008

O hoje me aperta entre seus dedos metálicos mas ainda não me tem nas mãos. Contra toda a paisagem o vento vem: acaricia e transfigura aquilo que da palavra não se espera que alcance. Corpo em grito, desejante, de quase morte: ar se deslocando. Emaranhado tenso em desmanche a perguntar como fazer da cisão uma fresta. Um raio. Que se desenhe paralelo a terra e o céu, cortando a paisagem da tormenta.

Grande escritor

Uma vírgula pequena no canto da boca, que o escritor esqueceu de pôr e quando viu tava mastigando ela, tempão. Aquela vírgula de dizer a hesitação, a tentativa de não saber pra poder entender melhor. A vírgula de ser inacabado, como o horizonte. Um fã da Clarice lhe disse que a amava com mudo fervor, ao que ela lhe respondeu que todo fervor é mudo.

Como não ter ordem pra escrever um texto, encontrar a vírgula ao dobrar a esquina e ficar olhando, olhando, a quebra que ela faz no que já não está inteiro. Como as ruas vazias, becos, aquilo do que não está escrito. Não no papel, mas se vê impresso na pele do mundo, por todos os cantos. Cantos da boca, em que o escritor mastiga a vírgula.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008